Le Sans-Pareil, Les Musiciens Navigateurs
Os Músicos Navegadores
Quando vasculhamos a correnteza dos séculos à procura de ligações ancestrais entre a Europa e o Novo Mundo, algumas figuras de proa emergem. Lembremo-nos de que em 1394 nascia, de uma família real de Portugal, o infante Dom Henrique, aquele que receberá, aos vinte anos, o epíteto de “O Navegador”. Pois é justamente aí que se abre a época dourada do império colonial português, que vê Vasco da Gama dobrar o Cabo da Boa Esperança para atingir as Índias, e depois Pedro Álvares Cabral aportar, em 1500, na praia de um novo território que posteriormente seria batizado de Brasil. Mas Henrique, o navegador, não viverá o bastante para poder testemunhar essas descobertas.
Seiscentos anos mais tarde, em 1994, Bruno Procópio, jovem cravista brasileiro, chega na França para aperfeiçoar sua formação instrumental, iniciada no Rio de Janeiro. Sua juventude foi banhada por este repertório muito particular a que chamamos de música colonial brasileira. Não nos enganemos: o termo colonial não implica em uma forma artística imposta pelos dominadores portugueses, que seria apenas um reflexo pitoresco dos cânones europeus. Uma vez deixado para trás o frenesi inicial de apropriação do ouro e das madeiras preciosas, sucedeu o tempo dos intercâmbios culturais, complexos, múltiplos. O florescimento da arquitetura barroca portuguesa nas igrejas de Minas Gerais é uma de suas manifestações mais cativantes. E com a emergência, no século XVIII, de uma música sacra, herdeira singular dos mestres de Lisboa, a música não ficou para trás.
É para dar provas desta riqueza musical que Bruno Procópio funda, a partir de 2004, com o apoio de musicólogos brasileiros, “os Solistas do Palais Royal”. Para além da sua relação privilegiada com o estilo colonial, o conjunto percorre com igual competência a música Européia, e mais particularmente os compositores que contribuíram, através de trocas regulares com o Novo Mundo, com a pluralidade musical da corte de Portugal.
Hoje em dia, o Sans-Pareil, esta embarcação de almirantado sonhada por Luis XV e que não chegou a ver a luz do dia, se reincarna. Uma caravela musical solta suas amarras do Palácio-Real para navegar livremente. Numa homenagem remota à Dom Henrique, os Músicos Navegadores, capitaneados por Bruno Procópio, rumam de volta ao encontro do Brasil. Levam a bordo os talentos enriquecidos por longa prática musical, e estão ávidos por descobertas vindas do outro lado do Oceano. Henrique, o Navegador, faz votos que os ventos lhes sejam favoráveis.

